Não é proposital que este blog seja lento, enfadonho, ou eclético. Mas conformemo-nos que maiores defeitos ainda hão de surgir. Hoje trato de Ivan Junqueira. Admito que nunca tinha ouvido falar dele antes de, em uma de minhas viagens a Salvador e me deparar com aquela capa amarelo-neon. Tal tonalidade atiçara minha curiosidade, mas o que encontrei me cativou:
Os mortos sentam-se à mesa,
mas sem tocar na comida;
ora fartos, já não comem
senão côdeas de infinito.
Côdeas, mas o que são côdeas? Saquei o dicionário do meu celular (nerd é assim) e li:
Côdea: casca de pão... Os mortos do poema eram capazes ou tinham interesse de digerir apenas a superfície da eternidade??!! Segurei a perplexidade e continuei algumas estrofes depois:
Sei de mortos que partiram
quase vivos, entre lírios;
e outros que sibilinos,
furtaram-se às despedidas.
Lembro alguns, talvez meninos,
que se foram por equívoco;
e outros mais, algo esquecidos
que de si mesmo se iam.
Mortos que não passam pelo processo esperado de doença, padecimento e passamento. Mortos que se vão crianças. Mortos que morrem por si mesmos e ainda assim esquecidos ( de si? dos outros?) Era coisa que não podia deixar passar. Vi outras poesias mas já decidido a adquirir o volume. R$ 12,90.
Na fila do caixa ( a livraria/ sebo estava vazia não sei porque fiquei tanto tenpo na fila ) ainda deu tempo de ver mais uma :
Canção
Porque pedes, trago flores
e derramo-as em teu leito,
sobre teus úmidos pêlos,
entre os gomos de teu seio.
Porque pedes, planto flores
em lugar de desespero
e mudo os tons da palheta
do negro para o vermelho.
Porque pedes, colho flores
até na escarpa mais erma,
nos desertos onde a seca
mostra a vida pelo avesso.
Porque pedes, ponho flores
nos tetos e nas paredes
e são elas, não as letras,
que dão sentido ao que escrevo.
Porque pedes deito flores
às ondas de teus cabelos
e elas faíscam - estrelas-
no pélago em que as semeio.

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