A Bíblia, a Odisséia de Homero, o Kama-Sutra, a Poética de Aristóteles, Os Elementos de Euclides, a República de Platão, foram todos criados como livros manuscritos. Isto é, antes de chegar nas mãos de um leitor cada volume tinha de ser copiado, letra a letra por um escriba ou monge. Se isso não te faz tremer, gostaria que pensasse um pouco na sua maior atividade de cópia manuscrita. Provavelmente foi na escola, possivelmente algo entre 10 e 30 páginas de folhas pautadas. Agora pense em um livro da magnitude da bíblia.Era trabalho para anos. Além disso a função do escriba não era apenas copiar. Ele tinha também que elaborar a tinta, preparar o papiro ou o pergaminho, costurar as folhas copiadas para formar o códice (isto é, o livro propriamente dito).
Podemos levar o pensamento ainda além: A poética de Aristóteles, por exemplo, foi escrita há mais de 300 anos antes de Cristo. Teve de sobreviver de cópia em cópia, sendo que cópias ficavam velhas e estragavam. Por vezes um escriba teria de ir até uma cidade distante da Grécia, conseguir aquele último exemplar que ele teve conhecimento, conseguir que o dono o emprestasse e, além disso, algum abrigo onde realizar o lento e laborioso trabalho. Por fim é natural que vários produtos do pensamento original dos antigos não alcançassem a era da imprensa. Por exemplo vários textos do matemático siracusano Arquimedes, que poderia ter feito avançar por séculos nosso conhecimento tecnológico. Pode-se citar também a maioria das peças teatrais de Ésquilo e Aristófanes. Tratados médicos medievais, técnicas de construção civil gregas e romanas.
Não havia tido a percepção dessas perdas de conteúdo, antes de me chegar às mãos dois livros. O primeiro, Codex Arquimedes, que descreve o trabalho de identificar e recuperar um manuscrito do sábio matemático. E o outro: O que Jesus disse, o que Jesus não disse, que descreve de forma minuciosa o trabalho dos escribas que perpetuaram o antigo e o novo testamento pelo tempo anterior à imprensa.
Merecem definitivamente ser lidos, entretanto sem o menor peso na consciencia ao pular as partes enfadonhas.



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