domingo, 7 de outubro de 2012
O básico da filosofia
A existência de Deus, como aplicar justiça, como devemos punir os criminosos, qual é o melhor sistema político, se devemos ou não confiar na ciência. São opiniões e escolhas que estão no núcleo de nossas convicções mais arraigadas e que, várias vezes, são definidores de uma boa parcela da nossa personalidade. Quando refletimos sobre como chegamos a estas opiniões e escolhas, vemos que em geral, nos conformamos com a opinião dos nossos pais, dos nossos amigos ou da "maioria". É aí onde está a importância deste opúsculo de Niguel Warburton. No seu sucinto O Básico Da Filosofia, Warburton nos desafia a questionar essas crenças tão profundas e a parar para pensar se há alternativas para essas grandes certezas. Tal leitura não necessariamente nos fará mudar de opinião, mas nos dará, no mínimo, uma maior desenvoltura para conhecer e defender o ponto de vista escolhido. Outro benefício é o de superar o maniqueísmo: "Eu estou certo e sou bom, você está errado e é mau". Conflito este que é contraproducente e que grassa até mesmo nas intelectualidades que se consideram mais modernas e ventiladas.
Longa viagem até a imprensa
A Bíblia, a Odisséia de Homero, o Kama-Sutra, a Poética de Aristóteles, Os Elementos de Euclides, a República de Platão, foram todos criados como livros manuscritos. Isto é, antes de chegar nas mãos de um leitor cada volume tinha de ser copiado, letra a letra por um escriba ou monge. Se isso não te faz tremer, gostaria que pensasse um pouco na sua maior atividade de cópia manuscrita. Provavelmente foi na escola, possivelmente algo entre 10 e 30 páginas de folhas pautadas. Agora pense em um livro da magnitude da bíblia.Era trabalho para anos. Além disso a função do escriba não era apenas copiar. Ele tinha também que elaborar a tinta, preparar o papiro ou o pergaminho, costurar as folhas copiadas para formar o códice (isto é, o livro propriamente dito).
Podemos levar o pensamento ainda além: A poética de Aristóteles, por exemplo, foi escrita há mais de 300 anos antes de Cristo. Teve de sobreviver de cópia em cópia, sendo que cópias ficavam velhas e estragavam. Por vezes um escriba teria de ir até uma cidade distante da Grécia, conseguir aquele último exemplar que ele teve conhecimento, conseguir que o dono o emprestasse e, além disso, algum abrigo onde realizar o lento e laborioso trabalho. Por fim é natural que vários produtos do pensamento original dos antigos não alcançassem a era da imprensa. Por exemplo vários textos do matemático siracusano Arquimedes, que poderia ter feito avançar por séculos nosso conhecimento tecnológico. Pode-se citar também a maioria das peças teatrais de Ésquilo e Aristófanes. Tratados médicos medievais, técnicas de construção civil gregas e romanas.
Não havia tido a percepção dessas perdas de conteúdo, antes de me chegar às mãos dois livros. O primeiro, Codex Arquimedes, que descreve o trabalho de identificar e recuperar um manuscrito do sábio matemático. E o outro: O que Jesus disse, o que Jesus não disse, que descreve de forma minuciosa o trabalho dos escribas que perpetuaram o antigo e o novo testamento pelo tempo anterior à imprensa.
Merecem definitivamente ser lidos, entretanto sem o menor peso na consciencia ao pular as partes enfadonhas.
Podemos levar o pensamento ainda além: A poética de Aristóteles, por exemplo, foi escrita há mais de 300 anos antes de Cristo. Teve de sobreviver de cópia em cópia, sendo que cópias ficavam velhas e estragavam. Por vezes um escriba teria de ir até uma cidade distante da Grécia, conseguir aquele último exemplar que ele teve conhecimento, conseguir que o dono o emprestasse e, além disso, algum abrigo onde realizar o lento e laborioso trabalho. Por fim é natural que vários produtos do pensamento original dos antigos não alcançassem a era da imprensa. Por exemplo vários textos do matemático siracusano Arquimedes, que poderia ter feito avançar por séculos nosso conhecimento tecnológico. Pode-se citar também a maioria das peças teatrais de Ésquilo e Aristófanes. Tratados médicos medievais, técnicas de construção civil gregas e romanas.
Não havia tido a percepção dessas perdas de conteúdo, antes de me chegar às mãos dois livros. O primeiro, Codex Arquimedes, que descreve o trabalho de identificar e recuperar um manuscrito do sábio matemático. E o outro: O que Jesus disse, o que Jesus não disse, que descreve de forma minuciosa o trabalho dos escribas que perpetuaram o antigo e o novo testamento pelo tempo anterior à imprensa.
Merecem definitivamente ser lidos, entretanto sem o menor peso na consciencia ao pular as partes enfadonhas.
sábado, 6 de outubro de 2012
Ivan Junqueira e a quebra do preconceito contra poetas premiados
Não é proposital que este blog seja lento, enfadonho, ou eclético. Mas conformemo-nos que maiores defeitos ainda hão de surgir. Hoje trato de Ivan Junqueira. Admito que nunca tinha ouvido falar dele antes de, em uma de minhas viagens a Salvador e me deparar com aquela capa amarelo-neon. Tal tonalidade atiçara minha curiosidade, mas o que encontrei me cativou:
Os mortos sentam-se à mesa,
mas sem tocar na comida;
ora fartos, já não comem
senão côdeas de infinito.
Côdeas, mas o que são côdeas? Saquei o dicionário do meu celular (nerd é assim) e li:
Côdea: casca de pão... Os mortos do poema eram capazes ou tinham interesse de digerir apenas a superfície da eternidade??!! Segurei a perplexidade e continuei algumas estrofes depois:
Sei de mortos que partiram
quase vivos, entre lírios;
e outros que sibilinos,
furtaram-se às despedidas.
Lembro alguns, talvez meninos,
que se foram por equívoco;
e outros mais, algo esquecidos
que de si mesmo se iam.
Mortos que não passam pelo processo esperado de doença, padecimento e passamento. Mortos que se vão crianças. Mortos que morrem por si mesmos e ainda assim esquecidos ( de si? dos outros?) Era coisa que não podia deixar passar. Vi outras poesias mas já decidido a adquirir o volume. R$ 12,90.
Na fila do caixa ( a livraria/ sebo estava vazia não sei porque fiquei tanto tenpo na fila ) ainda deu tempo de ver mais uma :
Canção
Porque pedes, trago flores
e derramo-as em teu leito,
sobre teus úmidos pêlos,
entre os gomos de teu seio.
Porque pedes, planto flores
em lugar de desespero
e mudo os tons da palheta
do negro para o vermelho.
Porque pedes, colho flores
até na escarpa mais erma,
nos desertos onde a seca
mostra a vida pelo avesso.
Porque pedes, ponho flores
nos tetos e nas paredes
e são elas, não as letras,
que dão sentido ao que escrevo.
Porque pedes deito flores
às ondas de teus cabelos
e elas faíscam - estrelas-
no pélago em que as semeio.
Os mortos sentam-se à mesa,
mas sem tocar na comida;
ora fartos, já não comem
senão côdeas de infinito.
Côdeas, mas o que são côdeas? Saquei o dicionário do meu celular (nerd é assim) e li:
Côdea: casca de pão... Os mortos do poema eram capazes ou tinham interesse de digerir apenas a superfície da eternidade??!! Segurei a perplexidade e continuei algumas estrofes depois:
Sei de mortos que partiram
quase vivos, entre lírios;
e outros que sibilinos,
furtaram-se às despedidas.
Lembro alguns, talvez meninos,
que se foram por equívoco;
e outros mais, algo esquecidos
que de si mesmo se iam.
Mortos que não passam pelo processo esperado de doença, padecimento e passamento. Mortos que se vão crianças. Mortos que morrem por si mesmos e ainda assim esquecidos ( de si? dos outros?) Era coisa que não podia deixar passar. Vi outras poesias mas já decidido a adquirir o volume. R$ 12,90.
Na fila do caixa ( a livraria/ sebo estava vazia não sei porque fiquei tanto tenpo na fila ) ainda deu tempo de ver mais uma :
Canção
Porque pedes, trago flores
e derramo-as em teu leito,
sobre teus úmidos pêlos,
entre os gomos de teu seio.
Porque pedes, planto flores
em lugar de desespero
e mudo os tons da palheta
do negro para o vermelho.
Porque pedes, colho flores
até na escarpa mais erma,
nos desertos onde a seca
mostra a vida pelo avesso.
Porque pedes, ponho flores
nos tetos e nas paredes
e são elas, não as letras,
que dão sentido ao que escrevo.
Porque pedes deito flores
às ondas de teus cabelos
e elas faíscam - estrelas-
no pélago em que as semeio.
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