quarta-feira, 1 de junho de 2011

Longa Jornada Noite Adentro - Eugene O’Neill



A naturalidade dos diálogos é algo que sempre me surpreende nos autores de teatro. Porém com Eugene O’Neill tal surpresa torna-se assombro. O diálogo entre os personagens no dia em que se passa a ação de Longa Jornada Noite Adentro inicia-se com uma coloquialidade amorfa, nem por um instante revelando a profundidade da exploração psicológica que irá decorrer ao longo da peça. O enredo nos prende furtivamente, alternando como nos movimentos de uma sinfonia momentos de tensão com interlúdios de inaudita leveza.

A temática da peça, e espero aqui não privar ninguém da surpresa, é a dependência a drogas, mas foge do lugar comum ao substituir o jovem imaturo raivoso pela conformação de uma senhora de meia idade. Apesar de a obra ter sido escrita em 1941 e ser ambientada em época ainda mais pretérita: 1912, o tema é tratado com realismo e, graças a deus, fora das perspectivas maniqueístas e salvacionistas.  Os outros personagens não conseguem deixar de pensar de discutir seus próprios vícios e de acusar os dos outros, o que dá a trama uma densidade plúmbea. Nesse ponto devo louvar que há ao menos uma vantagem em ler uma peça quando se compara a assisti-la: Lendo, pode-se fechar o livro um pouco quando a pena do autor aponta pra gente. 

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