quinta-feira, 2 de junho de 2011

Caixa-Preta - Ivan Sant'anna


Há temas que aparentemente só despertam o interesse no jornal, tal é o caso de grandes desastres aéreos. Acompanhamos atentos seu anúncio e a descoberta eventual de suas causas, mas logo perdemos o interesse se não somos sobreviventes ou parentes de vítimas. O livro de Sant'anna entretanto, longe de ser uma retrospectiva jornalística enfadonha, traz de forma original a vivência dos passageiros durante os eventos que envolveram as ocorrências dos desastres. A fluência do texto e a vivacidade do relato me renderam uma noite de  insônia em que mal largava o livro logo o retomava impulsionado pela curiosidade de conhecer os fatos seguintes, sempre espantosos. 

Os detalhes técnicos embora muito instrutivos tem o potencial de aborrecer quem a eles é menos afeito. De certa forma parece que o autor quer mostrar que fez uma pesquisa completa e exaustiva (questão sobre a qual de fato não resta dúvidas). 

Em resumo, e apenas como uma prévia, vemos que as causas dos desastres descritos são, respectivamente: um cigarro mal apagado, alguém querendo derrubar o avião sobre o então presidente José Sarney, a dificuldade de um piloto em determinar o local correto de uma vírgula no painel de controle. 

As situações necessariamente dramáticas vividas pelos personagens são narradas com sobriedade exemplar, o que no final de contas mostra a principal missão do livro: confrontam o heróico e o amadorístico da história recente da aviação brasileira, a partir de histórias reais e inacreditáveis. Aconselho efusivamente a leitura. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Longa Jornada Noite Adentro - Eugene O’Neill



A naturalidade dos diálogos é algo que sempre me surpreende nos autores de teatro. Porém com Eugene O’Neill tal surpresa torna-se assombro. O diálogo entre os personagens no dia em que se passa a ação de Longa Jornada Noite Adentro inicia-se com uma coloquialidade amorfa, nem por um instante revelando a profundidade da exploração psicológica que irá decorrer ao longo da peça. O enredo nos prende furtivamente, alternando como nos movimentos de uma sinfonia momentos de tensão com interlúdios de inaudita leveza.

A temática da peça, e espero aqui não privar ninguém da surpresa, é a dependência a drogas, mas foge do lugar comum ao substituir o jovem imaturo raivoso pela conformação de uma senhora de meia idade. Apesar de a obra ter sido escrita em 1941 e ser ambientada em época ainda mais pretérita: 1912, o tema é tratado com realismo e, graças a deus, fora das perspectivas maniqueístas e salvacionistas.  Os outros personagens não conseguem deixar de pensar de discutir seus próprios vícios e de acusar os dos outros, o que dá a trama uma densidade plúmbea. Nesse ponto devo louvar que há ao menos uma vantagem em ler uma peça quando se compara a assisti-la: Lendo, pode-se fechar o livro um pouco quando a pena do autor aponta pra gente. 

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Catástrofes (nem tanto) naturais - Patrícia Highsmith


Esses dias caiu nas minhas mãos um pequeno livro de contos da conhecida autora de suspenses policiais Patrícia Highsmith. O que me chamou a atenção foi a proposta de discutir problemas reais na perspectiva da ficção. Entretanto o livro lançado em 1989 é incrivelmente "datado" muito apegado a questões muito restritas temporalmente e hoje já caducas.
Em o Cemitério misterioso temos de início um ambiente quase kafkiano mas que a falta de direcionamento do enredo nos leva ao enfado e ao desestímulo em suas partes finais. Moby Dick II ou a baleia míssil entretanto, agrega algo de interessante ao já batido artifício de perscrutar os pensamentos e vivências de animais, num conto quase em primeira pessoa. O que há de interessante nessa obra é justamente o exame do surgimento da crueldade e do revanchismo. O terceiro e o décimo contos, respectivamente Operação bálsamo ou não-me-toques e O presidente Buck Jones incita ao patriotismo primam pela falta de imaginação e sensação de reprise. Mas o conto Nabuti: boas-vindas calorosas a uma comissão da ONU é absolutamente primoroso com um humor sofisticado e uma crítica à igenuidade em vários graus. O próximo também é de qualidade muito superior ao restante dos contos. Doce liberdade! E um piquenique no jardim da Casa Branca traz uma visão ampla e multifacetada sobre a questão da doença mental, é leitura estranhamente leve quando confronta-se a quantidade de conhecimento que agrega ao leitor. Problemas no Torres de Jade compartilha com vários outros contos do livro a falta de fôlego, o enredo que inicialmente chama atenção se dilui na sequência de desdobramentos previsíveis. Aluga-se Útero versus o poderoso direito é uma referencia muito estritamente ligada a forma como se dá a discussão sobre a liberação do aborto e a tradição religiosa nos EUA. Todo o conto soou-me terrivelmente despropositado. Sem fim a vista é muito interessante ao tratar sobre o envelhecimento e a morte, mas muito mais longo do que deveria ser. Sisto VI, o papa da chinelinha vermelha provavelmente já era desinteressante quando foi lançado.

De uma forma geral essa coletânea demonstra que não é suficiente uma boa idéia pra se fazer bons contos e também que o tamanho do conto deve ser proporcional a força de seu enredo. Entretanto indico fortemente a leitura de três contos:   Nabuti: boas-vindas calorosas a uma comissão da ONU, Doce liberdade! E um piquenique no jardim da Casa Branca e   Sem fim a vista.

Eis o link para download do livro, em espanhol, não encontrei-o disponível em português.


http://www.4shared.com/document/KEM56CAj/Highsmith_Patricia_-_Catastrof.htm

quarta-feira, 23 de março de 2011

segunda-feira, 21 de março de 2011